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O terremoto de Lisboa em 1755 - o advento do Marquês de Pombal

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O terremoto de Lisboa em 1755 - o advento do Marquês de Pombal

Mensagem por Admin em 26th Março 2010, 13:29

Em 1755 Lisboa foi acometida por um forte terremoto que praticamente a destruiu. Abaixo uma narrativa de cunho do Marquês de Pombal:

O Terremoto de Lisboa

A catástrofe que se abateu sobre Lisboa em 1755, seguramente a maior tragédia coletiva do povo português ao longo de toda a sua história, foi registrada por vários historiadores e escritores. A que se segue é a notável narrativa de Oliveira Martins, contida na História de Portugal, vol. I - O terramoto - O marquês de Pombal, um dos pontos altos da narrativa da língua portuguesa, editada em 1879.

Poucas catástrofes geológicas geraram tantas indagações e lançaram tantas dúvidas no homem moderno como ocorreu com o trágico terremoto de Lisboa de 1755. O mundo católico estarreceu-se porque a capital do Reino de Portugal era uma das cidades mais beatas que se conhecia. Não havia lisboeta que não deixasse encomendado junto à sua paróquia, para depois da sua morte, uma infinidade de missas e solicitações de velas acesas para a sua alma, para que descansasse em paz. Todas, missas e velas, quase sempre pagas antecipadamente. Porém nada disso adiantou e Lisboa foi punida como Sodoma o fora nos tempos bíblicos. No restante da Europa, o desaparecimento súbito de uma cidade inteira causou profundo abalo nas crenças otimistas geradas pela filosofia de Leibniz, segundo a qual vivíamos "no melhor dos mundos possíveis" (amplamente satirizada por Voltaire na sua narrativa Cândido, ou o otimismo, onde também dedicou trechos aos devastadores efeitos do terremoto de Lisboa). Pode-se considerar que as obras de reconstrução da cidade coordenadas durante o consulado pombalino foram facilitadas graças à existência do ouro vindo do Brasil que permitiu a construção de uma nova cidade, moderna, no lugar da Lisboa medieval que ainda subsistia nos finais do século XVIII.

"Na manhã do 1º de novembro [de 1755] a cidade estremeceu, abalada profundamente, e começou a desabar. Eram nove horas, dia de Todos-os-Santos. Nas suas casas ardiam as velas dos oratórios, e as igrejas regurgitavam povo a ouvir missas. Toda a gente, numa onda, correu às praias; mas, rolando em massas, estancou perante a onda que vinha do rio, galgando a inundar as ruas, invadindo as casas. Por sobre este encontro ruidoso, uma nuvem de pó que toldava os ares e escurecia o sol, pairava, formada já pelos detritos das construções e das mobílias, que o abalo interno da terra vasculhava, e os desabamentos enviavam, em estilhas, para o ar.

Fugindo do maremoto

A onda do povo aflito, retrocedendo, a fugir do mar, tropeçava nas ruínas; e as quedas, e a metralha dos muros que tombavam, abriam na floresta viva, aditada pelo vento da desgraça, clareiras de morte, montões de cadáveres e poças de sangue, dos membros decepados, com manchas brancas de cérebros derramados contra as esquinas. E as casas erguiam-se com as paredes desabadas, os tetos abertos sobre os esqueletos dos tabiques, mostrando a nu todos os interiores funestos, neste dia em que, para muitos, Deus julgara e condenara Lisboa, como outrora fizera com Sodoma.

Por isso rouco trovão dos desabamentos se ouvia cortado pelos ais dos moribundos, e pelos gritos dos homens e das mulheres, abraçados às cruzes, aos santos, às relíquias, soluçando ladainhas, ungindo moribundos, parando esgazeados a cada novo abalo da terra que não cessava de tremer, arrastando-se pelo chão, de joelhos, com as mãos postas, a face em lágrimas, a clamar: Misericórdia! Misericórdia!

Tudo caía


Casas, palácios, conventos, mosteiros, hospitais, igrejas, campanários, teatros, fortalezas, pórticos, tudo, tudo caía. 'Se visses somente o palácio real, diz uma testemunha, que singular espetáculo meu irmão!' Os varões de ferro, retorcidos como vimes, as cantarias estaladas como vidros. A onda do rio sorvia num momento o cais do Terreiro do Paço, com os barcos atracados coalhados de gente. Dos andares altos precipitavam-se sobre as lajes das ruas. O medo crescia, vinha loucura: viam-se mortos arrastados pelos vivos, viam-se mutilados coxeando, gente correndo desgrenhada, seminua, homens e mulheres, velhos e crianças, dilacerados, sangrentos, arrastando uma perna fraturada, esvaindo-se em sangue por algum membro decepado. Gritos, choros, clamores, imprecações, ais, preces, um burburinho de vozes desvairadas acompanhava os gemidos comprimidos dos soterrados nos escombros.

Homens e bichos tomados pela loucura

No turbilhão das ruas, havia quedas e mortes, abraços e agonias. A mesma loucura dos homens era o desvairamento dos brutos: os machos, desbocados, arrastavam os cavaleiros e as caleças, precipitando-se nos despenhadeiros da cidade montuosa; e a massa de gente viva, moribunda e morta, de envolta com os entulhos, rolavam nas ruas ladeadas pelos esqueletos das casas dando uma imagem desolada do que seria o caos. Quando a terra se subvertia, quando o mar vinha subindo, a afogar a terra, quando no ar faiscavam as línguas flamíferas rutilantes, que lembrança poderia haver das invenções humanas?

Abraçados, confundidos, na comunidade do pranto, fidalgas e freiras, meretrizes e mães, mendigos e senhores, vilões e cavalheiros, abraçavam-se na comunidade da fome, do frio, da nudez, do terror. De rastros a cidade inteira, sacudida pelo abalo formidável, reunia toda a sua eloqüência numa palavra única - Misericórdia! Misericórdia!

Depois da Água o Fogo

Mas vinha o clarão das chamas com a sua luz sinistra; vinha a labareda fustigar com lume a pobre gente seminua, tiritando sob o açoite de um nordeste frígido. Gelava-se a ardia-se a um tempo; sufocava-se em fumo e pó. E as labaredas cresciam, e o incêndio lavrava, e aos gritos desvairados dos infelizes juntava-se o crepitar das madeiras, o estalar das cantarias, a cascalha dos espelhos, dos cristais e dos charões, que o fogo devorava. A densa nuvem de pó que escurecia tudo, iluminava-se com os clarões vermelhos que rebentavam por toda a parte, porque Lisboa inteira derrocada era um braseiro. As línguas orgulhosas das chamas subiam emproadas para o céu, juntando às preces lacrimosas de habitantes como um protesto satânico dos elementos.

A Fúria dos Escravos


Outros protestos, mais positivos e igualmente horríveis, atroavam agora os ares: os escravos vingavam-se da sua escravidão, os mendigos da sua pobreza, os maus da sua maldade. O assassinato, o estupro, o roubo, como numa terra posta ao saque, rolavam de envolta com as ruínas e o fogo; e por entre os destroços ainda apagados viam-se os perfis negros dos escravos, rindo infernalmente, com os olhos injetados, os dentes brancos, a atirar tições ardentes para cima das ruínas, aumentando o incêndio, aclamando a chama vingadora... Misericórdia! Misericórdia!

Calcula-se terem morrido neste dia, em Lisboa, de 10 a 15 mil pessoas. Dessa hecatombe nasceu o poder do marquês do Pombal... O terramoto fez-se pois homem, e encarnou em Pombal, seu filho."

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Re: O terremoto de Lisboa em 1755 - o advento do Marquês de Pombal

Mensagem por Carlos Costa em 1st Abril 2010, 12:00

Ainda hoje é lembrada a frase do Marquês de Pombal depois do terramoto:

"Enterrai os mortos, e cuidai dos vivos".

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Re: O terremoto de Lisboa em 1755 - o advento do Marquês de Pombal

Mensagem por Xevious em 1st Abril 2010, 13:16

Admin escreveu:Deus julgara e condenara Lisboa, como outrora fizera com Sodoma.
PoisZé, impressionante a narrativa Rolling Eyes

Mas atualmente, pelo que sei Lisboa não tem tradição de haver terremotos.
(queria que os colégas lusos me confirmassem ou não essa informação).

Por isso me é incompreensível o porque de um terremoto tão avassalador.

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A sismicidade em Portugal

Mensagem por EuclidesPiR2 em 1st Abril 2010, 13:59

Dados sísmicos de Portugal:


Além da sismicidade associada à deformação litosférica na fronteira de placas Açores-Gibraltar, existe também actividade sísmica significativa no interior do território português e junto ao litoral, caracterizada pela ocorrência de alguns sismos históricos com magnitude estimada em cerca de 7.

Eventos quer históricos (como, por exemplo, os sismos de Benavente, em 1909, de Loulé, em 1856, e o de Setúbal, em 1858), quer instrumentais, revelam que a sismicidade intra-placas tem, também, grande relevância.

A simples observação de um mapa de epicentros da Península Ibérica permite identificar de imediato uma banda de concentração de actividade sísmica ao longo da fachada atlântica da Península, mais intensa para sul da Galiza, sugerindo algum processo de interacção entre as litosferas oceânica e continental ao longo da margem atlântica oeste-ibérica que seja responsável pela actividade tectónica e sísmica regional.

Admitindo que a margem oeste-ibérica é uma margem passiva, a referida actividade sísmica será gerada em falhas activas no interior da placa litosférica eurasiática, consistindo, consequentemente, em sismicidade intraplaca.

No entanto, grande parte desta sismicidade pode ser explicada se se aceitar a hipótese da existência de uma zona de subducção em iniciação ao longo da margem continental ocidental.

Os eventos mais fortes de que há conhecimento correspondem a sismos históricos ocorridos em diversas áreas do território, nomeadamente na região do vale inferior do Tejo (sismos em 1531 e 1909), na plataforma continental a sul de Setúbal (sismo em 11 NOV 1858; M=7,1), e na plataforma continental do Algarve, ao largo de Portimão (sismo em 6 MAR 1719) e de Tavira (sismo em 27 DEZ 1722). Estima-se que todos estes eventos tiveram magnitude próxima de 7.

Além da sismicidade referida, a distribuição de epicentros mostra uma dispersão considerável, não sendo fácil correlacioná-los com as falhas activas conhecidas. O carácter difuso da sismicidade poderá dever-se à sua situação num ambiente tectónico intraplaca.

O mapa de distribuição de epicentros revela concentração na faixa litoral a norte de Sines até às proximidades da Nazaré. Também se distingue concentração de sismicidade na região litoral do Algarve, com três pólos principais de actividade nas áreas de Portimão, Loulé-Faro e Tavira - V.R.Sto.António.

Distingue-se, ainda, sismicidade significativa nas Beiras e Trás-os-Montes, alguma da qual relacionada com falhas activas já reconhecidas. Também na região de Évora há a assinalar importante sismicidade.

Algumas das áreas com sismicidade mais relevante são:

Sismicidade da zona oeste-ibérica, com base no catálogo sísmico do IGIDL e o catálogo 1970-2000 do IM <www.igidl.ul.pt>

*
Falha da Nazaré

A falha da Nazaré tem apresentado actividade especialmente na parte submersa. Os epicentros dos sismos parecem acompanhar esta zona de fractura. Foi nesta falha que se gerou o sismo de 26 de Dezembro de 1962, com magnitude 5,7.

* Falha do Vale Inferior do Tejo

A falha do Vale Inferior do Tejo, com direcção aproximada NE-SW, corresponde a uma fonte sismogénica em que se têm verificado vários eventos catastróficos (p. ex.: 1344, 1531, 1909), que atingem, por vezes com grande violência, a cidade de Lisboa. Foi nesta falha, provavelmente nas proximidades de Vila Franca de Xira, que ocorreu o sismo de 26 de Janeiro de 1531 (um dos mais energéticos com epicentro em terra), e que destruiu muitas aldeias no Vale de Santarém. Foi também nesta falha que se gerou o sismo de Benavente, em 23 de Abril de 1909 (que destruiu por completo esta vila e várias aldeias próximas, causando, também, danos em Lisboa), cuja magnitude está estimada entre 6 e 7,6, e que é considerado o sismo mais destruidor, em Portugal Continental, no século XX.

* Setúbal

É, também, importante zona sísmica. A 11 de Novembro de 1858 ocorreu um sismo destruidor que provocou enorme destruição em Setúbal, e foi sentido em todo o território continental, cujo epicentro provável se localizou no mar, a alguns quilómetros desta cidade. Alguns autores integram este sismo, com magnitude estimada em 7,1, nos 15 maiores ocorridos mundialmente em crosta continental estável.

* Sul de Portugal Continental

Verifica-se grande concentração de epicentros na região do Algarve.

o Falha de Portimão

A sismicidade aludida é maior no barlavento, na área da serra de Monchique, estendendo-se para o mar mais ou menos ao longo da falha de Portimão. Foi provavelmente nesta falha que teve origem o sismo de 6 de Março de 1719, cuja magnitude estimada é 7.

o Loulé

Provavelmente associada ao diapirismo, verifica-se sismicidade importante nesta zona. Em 27 de Dezembro de 1722 ocorreu um sismo em que Loulé foi quase totalmente destruida (mas alguns autores situam o epicentro ao largo de Tavira, apontando evidências da ocorrência de um tsunami).

Também a 12 de Janeiro de 1856 ocorreu um sismo muito importante, com origem provável na falha de Loulé, que causou muitos danos no Algarve, particularmente em Loulé, Tavira e Faro.

o Cabo de São Vicente

No Golfo de Cádiz é uma área sismogénica, designadamente a zona do banco de Guadalquivir, onde se define um alinhamento de epicentros. Outro alinhamento, com direcção SE-NW, prolonga-se do referido banco até ao cabo de São Vicente (com possível ligação à falha de Portimão). É possível que alguns sismos importantes que afectaram a região algarvia (por vezes com tsunamis associados) tenham sido gerados nestes alinhamentos.

* Falha da Vilariça

Estruturas activas nesta área têm provocado sismicidade significativa. Em 19 de Março de 1858 ocorreu um sismo com origem nesta falha que destruiu a vila de Moncorvo.

* Évora

Esta zona do Alentejo é caracterizada por sismicidade difusa. O maior sismo recente ocorreu em Julho de 1998 e teve magnitude 4,1.


fonte: http://w3.ualg.pt/~jdias/GEOLAMB/GA5_Sismos/57_Portugal/572_SismicidPort.html

EuclidesPiR2
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Re: O terremoto de Lisboa em 1755 - o advento do Marquês de Pombal

Mensagem por Xevious em 1st Abril 2010, 15:08

PoiZé tenho que reconhecer que estava enganado quanto a sismocidade de Portugal
EuclidesPiR2 escreveu:Dados sísmicos de Portugal:
* Évora

Esta zona do Alentejo é caracterizada por sismicidade difusa. O maior sismo recente ocorreu em Julho de 1998 e teve magnitude 4,1.
Atravez do site Apolo11 pude verificar que ocorreu um terremoto da magnitude indicada como a maior, no grifo acima, ou seja 4.1 também e recentemente, 27 de Março 13:37, nas coordenadas 38.98N/ 7.59W.
Foi na cidade de Santo Amaro a nordeste de Évora.
Inclusive neste Link pode ver a região precisamente. (clique em + no mapa para aproximar)

Infelizmente os sismos em Portugal não devem diminuir, devem aumentar porque a Africa este se deslocando em direção a Europa.

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Re: O terremoto de Lisboa em 1755 - o advento do Marquês de Pombal

Mensagem por Carlos Costa em 1st Abril 2010, 18:17

Temos sentido alguns pequenos. Já senti dois, mas eram fracos. Eu moro no Porto, mas a minha cidade não é o epicentro deles. O epicentro fica na área ao redor de Lisboa, inclusive no mar, onde se situa a falha do Vale do Tejo.

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Re: O terremoto de Lisboa em 1755 - o advento do Marquês de Pombal

Mensagem por slyop em 8th Abril 2012, 16:11

contudo, penso que apesar de grande parte de Lisboa ter sido destruida pelo terramoto, ainda se conseguiram salvar alguns documentos. caso assim não fosse, nao se poderia analisar em história nem se tinha evoluido para saber o passado de Portugal. estarei certa?

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Re: O terremoto de Lisboa em 1755 - o advento do Marquês de Pombal

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